Pouco a pouco as surpresas deixaram de ser importantes. Na verdade, simplesmente deixavam de ser. Leon já não se surpreendia mais. Era uma certeza que, atrás de cada porta, sempre haveria mais vermelho. No início, se surpreendera com o tamanho aparentemente infinito do Castelo (Era um castelo? Leon supunha que sim. Nunca tinha visto um castelo por dentro, mas imaginava que a arquitetura de pedra, aliada aos móveis rústicos, era o cenário mais propício para ser chamado de "castelo"). E tamanho o Castelo tinha, com certeza. Não era raro o jovem ouvir o eco dos próprios passos. Não que os cômodos fossem vazios, longe disso. Cada corredor, salão e alcova era preenchida com tudo o que - Leon achava - um castelo deveria ter. De armaduras e castiçais a tapeçarias e estátuas, todo o lugar era o sonho de um saqueador: imenso, atulhado de riquezas e, aparentemente, desguardado.
Mas não inabitado. Leon estava lá, e o rapaz encontrara outros. Logo quando havia chegado ao Castelo, tivera aquela estranha conversa, nem um pouco instrutiva, com o Homem Borrado (o borrão no espelho, insistia sua mente). Depois do que pareceram 4 dias - pois era difícil precisar o tempo no eterno crepúsculo - o jovem de cabelos castanhos havia esbarrado, literalmente, em um alto homem escarlate, no meio de um corredor particularmente escuro. Tão escuro que Leon não conseguiu divisar o homem parado em seu caminho, e acabou batendo o nariz no ombro do sujeito.
- Ah! Sinto muito, eu... -disse Leon, recuando uns passos e erguendo as mãos em tom de desculpas - ... eu não vi... o senhor?
O homem alto, quase duas cabeças mais alto que o rapaz, olhava fixamente para a única janela visível, um pequeno quadrado de luz alaranjada perto do teto. Na luz difusa que passava por ele, Leon conseguiu definir seus traços. Um rosto grande e forte, imberbe, com sobrancelhas grossas cobrindo um olhar severo. O cabelo era longo, se perdendo nas sombras das costas. Vestia roupas de um tecido pesado, indistinguível na pouca luz. Ele não pareceu notar que havia mais alguém ali, muito menos que esse alguém tinha esbarrado em seu ombro e agora tentava conversar.
- Senhor? Olá? - Leon se aproximou, cauteloso, e estalou os dedos diante do nariz do sujeito, sem sucesso. O homem nem piscava. - Ei! Você! - Leon se postou diante do homem, abanando os braços freneticamente. Embora não tenha esboçado reação, o homem falou, quase num sussuro:
- Que todos se preparem. O Senhor do Castelo está chegando. - disse isso para ninguém em particular, ainda olhando para a janela. Piscou, abaixou o olhar e seguiu, firme, para uma porta oculta pelas sombras no fim do corredor, deixando um jovem perplexo para trás. Leon o teria seguido, se pudesse, mas algo o tinha perturbado. Não foi o que o homem dissera, mas como as palavras soaram. Aos ouvidos de Leon, elas eram muito... muito...
- Vermelhas. Como tudo nessa porcaria de castelo. - disse ele, com uma ponta de raiva. Tudo naquele lugar parecia agir para tirá-lo do sério, e Leon começava a imaginar quanto tempo ele aguentaria. Primeiro tinha se encontrado com aquele estranho tão familiar (O borrão, dizia sua mente intrometida, o borrão no espelho) e agora esse altão cabeludo.
Ele gostaria que tivesse parado por aí.
Pouco depois de ter esbarrado com o profético Homem Alto (como Leon passara a pensar nele) o jovem andante chegou a um pátio. Poucas vezes estivera a céu aberto desde que chegara ao Castelo, então aproveitava cada oportunidade como podia. Apoiado na baixa amurada, Leon sentia uma brisa fria que soprava do Oeste - que, pelo menos, Leon achava ser o Oeste. Mas não pôde apreciar a brisa por muito tempo. Havia mais alguém no pátio. Uma figura, agachada junto à amurada oposta, e tão imóvel que o jovem só notou depois de olhar uma segunda vez. Ao se aproximar, percebeu que era um velho... ou parecia ser. Estava agachado, com a cabeça entre os joelhos, estes dobrados junto ao peito. Os braços estavam soltos ao lado do corpo. Leon pôde ver a careca descamada e a pele enrugada do pescoço. Os braços magros, nus, mais pareciam gravetos avermelhados. Usava um robe carcomido, grande demais para o seu pequeno corpo mirrado. Aos olhos de Leon, parecia uma criança usando as roupas do pai. Uma criança terrivelmente velha. Não via seu rosto, mas mesmo assim se aproximou, agachando-se diante do velho.
- Ei, vovô. Acorde. - O velho continuou como estava, uma peça de decoração. Leon pensou em sacudi-lo. Para todos os efeitos, achava que o velho estava apenas dormindo, por mais imóvel que fosse seu sono. O rapaz segurou os ombros do velho suavemente, então estacou. Eram extremamente magros, e frios como gelo. Leon levantou as mãos devagar, recuando. Não sabia se o velho estava ou não acordado, se estava ou não vivo. Mas sentia-se inquieto. Tocar o velho lhe dera a certeza de que não queria ver aqueles olhos, se é que ele tinha olhos. A brisa tinha ido embora, deixando um silêncio tão denso que Leon sentiu dificuldade em respirar. Recuou devagar, preparado para correr caso o moribundo ameaçasse levantar a cabeça. Chegou até a porta. Sempre havia pelo menos duas portas, às vezes mais, mas sempre havia uma saída. Leon fez uso dela o mais rápido que pode. Só parou de correr seis aposentos mais tarde, incluindo uma longa escadaria em espiral que ele subiu de três em três degraus. Parou apenas para recuperar o fôlego, então correu de novo. Sem ver, sem pensar, ele apenas fugia.